terça-feira, fevereiro 08, 2005

Nickalhadas

Reza de outros tempos, são, por isso, memórias.
Por volta dos anos sessenta os meus pais saíram do centro de Lisboa, para viver em Queluz num conjunto de prédios de género arquitectónico muito em voga à época, um estilo que mais tarde viria a ser conhecido como J. Pimenta, um espelho do Portugal medíocre e atrasado pela ditadura.. Na altura isso foi provavelmente como nos noventa ir para Telheiras, ou hoje para a Expo.
Portanto, quando nasci em 1972, a minha primeira morada foi o inesquecível Pendão, ao fundo da Miguel Bombarda, última fronteira de Queluz com a estrada que vai dar a Belas.

Era muito deprimente toda aquele caminho que percorria a Avenida da Estação dos comboios a nossa casa, não que alguém tivesse consciência disso. Eu próprio sempre fui um emigrante: estudei em Lisboa, com excepção dos 5º e 6º anos, tal como os meus irmãos e agora que me recordo os meus pais também sempre trabalharam na cidade. Estranhas vidas estas que nos arrastam para os decadentes dormitórios e que nos entristecem sem darmos por isso. Agora as memórias têm esta coisa traiçoeira: ele há coisas, no meio de tanta depressão urbanística, que não nos largam, como é o caso das alcunhas da rapaziada vizinha.

Ora tendo sido sempre um bicho de casa, uma vez que me era vedada a possibilidade de brincar na rua, vá se lá saber porquê, nunca tive uma alcunha, um nick. Na rua chamavam-me Xano, o nome pelo qual a família sempre me chamou e ainda hoje chama, que é um derivado de Alexandre, o meu segundo nome. Psicanaliticamente o facto de nunca me terem chamado Humberto (ou mesmo Beto, o mais que a Tia Marlene conseguiu foi Beto-Xano) deverá ter alguma explicação, mas deixemos de parte esse lado obscuro, porque outros rapazes... Como dizer? Ah! Da minha criação (adoro a expressão) tiveram seguramente maiores problemas de identidade nominativa.
Os mais velhos tiveram menos criatividade para os Nicks: da geração dos meus pais destaca-se o Granadas, senhor ferido psicologicamente pela guerra que uma vez fez explodir uma granada em casa, após discussão com a mulher. Estranho como esse episódio lhe marcaria a denominação. Nem o facto de ter rebentado com o Café Lenita (junto ao Sol de Capri, sim, sim, esse por onde um toiro entrou esbaforido e o tornou na primeira celebridade que conheci na infância: foi notícia no Tal & Qual), tendo destruído o balcão e a montra, alteraram o Nick de Granadas. Nunca foi o Balcões ou o Montras, foi sempre o Granadas. Já dos nascidos em sessenta relembro apenas o Fanã, porque sempre achei que era uma boa denominação, pelo menos melhor que Xano. Mas o Fanã nunca teve grande fama na Rua.

Na geração de setenta a coisa mudou. Efectivamente com o BUM tecnológico provocado pela chegada dos Monopoly, Master Mind e mais tarde dos Spectrums, as alcunhas, vulgo nick names, ganharam terreno, criando a primeira geração de heterónimos a seguir à do Orfeu.
E para terem uma ideia da real dimensão, só no meu prédio viveram o Caramelo e o Pia. Duas portas ao lado da minha o Peida, por ser forte, não espadaúdo entenda-se, mas semi gordo, especialmente de cu. Com esta malta, porque especialmente eram do meu lado da rua, fiz em 1982 excelentes campeonatos de hóquei sem patins, balizas de duas pedras, sticks de tábua e bola de ténis, na (talvez) única oportunidade de brincar na rua, motivada pela brilhante campanha da selecção campeã do mundo, a de Leste, Xana, Ramalhete e companhia limitada.
Do outro lado da rua brilhavam um conjunto de primos (ligados a Granadas) com nicks do outro mundo: Manão, Meia-dose e o número 10 e capitão dos três ou quatro jogos que a categoria de iniciados, do Grupo Desportivo do Pendão, fez: de seu nick, Picha. Claro que tanto relevo advinha do facto de o pai ter orientado os dois treinos, nos acessos de alcatrão do que posteriormente viria a ser o Monte Abrão. O Mister pai não lhe chamava Picha, mas Paulo, embora fosse frequentemente confrontado com o "Passa, Picha" ou o "Aqui, Picha, sozinho".
Não imagino porque Manão era Manão, mas sei porque Meia-dose o era: passámos mesmo a sintetizar ainda mais a sua pessoa, através de um directo e simples Meia. Eram tempo genuínos. A ninguém ocorreria baptizá-lo de Anão ou Caga-tacos, como é hoje frequente, muito menos algo terrível que recentemente ouvi: Cheira-peidos.

Mais não me lembro, mas já me faz rir o suficiente. Não faço ideia do que é feito desta rapaziada, com excepção de uma anunciada pulseira electrónica ligada a pequeno tráfico de estupefacientes. Alguém adivinha quem terá sido o pecador?

E lanço-vos um desafio:
O Estado Negação promove um concurso dos Mais Engraçados Nicks da Nossa Infância. Escrevam nos comentários um nick engraçado, de alguém que tenham verdadeiramente conhecido. Não vale criatividade: tem mesmo de ser real, por isso devem explicar minimamente o contexto em que o direito de alcunha foi exercido.
A ver qual é o nick mais engraçado, da nossa estúpida, ingénua e decadente infância, no Portugal dos anos setenta.

5 Comments:

At 1:11 da manhã, Anonymous Anónimo said...

Querido Hum, estou anónima devido à minha inépcia. Os meus anos foram os fabulosos sessenta e sempre brinquei na rua, primeiro em Àfrica até aos meus 5 anos, depois em Lisboa. Infelizmente só me lembro de uma amiga dos tempos africanos que era a Tó (interssante a vários niveis). Em Lisboa para além do meu, que era Ana Chinesa (vim adescobrir à pouco tempo que os açoreanos têm genes semelhantes aos asiáticos, o meu pai era açoreano), tinha um João macaco pois parecia nas feições e na agilidade, um russo porque era o único loiro, um francês porque tinha a mania que era superior, um bébé por ser o mais novo, um fininho por ser magrinho, uma pintinhas por ter sardas, uma João maluca porque dizia disparates e chega.
beijinhos
Ana

 
At 11:23 da manhã, Blogger HB said...

Muito engraçado Ana Chinesa, o espírito é esse. Beijinhos ):

 
At 12:03 da manhã, Anonymous mpg said...

Um post porreiro.
Como contributo, refiro um grupo de amigos meus, algarvios, quase todos com nicks, cujas origens já se perdem no tempo: Mono, Faneco, Bocas, Beiços, Gremlin, Palha, Almancil e por aí fora.
Mas os nicks continuam activos e transmissíveis, nomeadamente para os relativos: Mona, Faneca, Fanequinho, Fanequinha.
É um universo único.

 
At 3:43 da tarde, Blogger HB said...

mpg: boa. curto muito faneca. abr.

 
At 2:06 da tarde, Anonymous Ana R said...

Olá só hoje li este post e fez-me sorrir... lembrar-me dos "nicks" da infância (ou alcunhas, nao?).
A começar pelo meu (só para os pais: pipoca - porque dizem que quando era bébé as minhas bochechas eram tao gordinhas que parecia que iam rebentar como o milho). Depois conheci: Ramone, Bina (porque recordava um personagem brasileira de novelas !! que horror), Patinho (porque tinha "bico" de pato/lábios gordos em coraçao), Betty, Gato, Destrambelhada, Francês (porque tinha um pai Francês..). Emfim... muitos deles com pouca imaginaçao ou que nao conheço a sua origem, mas gostei que este post me fizesse parar um bocadinho e recordar a minha infância.
Obrigada e beijinhos.
Ana R.

 

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